Ataques contra cristãos na Índia aumentaram mais de 400% em uma década, diz relatório
- 10/09/2026

A violência contra cristãos na Índia aumentou mais de 400% entre 2014 e 2025, segundo um novo relatório da Christian Solidarity Worldwide (CSW), organização internacional que monitora violações da liberdade religiosa.
Publicado na última terça-feira (08), o documento cita dados do United Christian Forum (UCF), organização indiana que mantém um serviço de apoio e monitoramento de violações contra cristãos no país.
De acordo com o levantamento, até julho deste ano, 342 incidentes de violência contra cristãos haviam sido registrados na Índia.
Nos últimos anos, os estados de Uttar Pradesh e Chhattisgarh concentraram o maior e o segundo maior número de casos, respectivamente.
Entre as violações denunciadas estão falsas acusações que resultam em detenções arbitrárias e processos judiciais, agressões, ameaças de morte, campanhas de ódio, ocupação ilegal de igrejas, expulsão de cristãos de suas comunidades e interrupção de cultos e reuniões religiosas.
Também há relatos de saques e destruição de casas, templos e outras propriedades pertencentes às comunidades cristãs.
Leis anticonversão
O relatório alerta ainda para o impacto das chamadas leis de “liberdade religiosa”, conhecidas como leis anticonversão, atualmente em vigor em 12 estados indianos.
Embora tenham sido criadas sob a justificativa de impedir conversões religiosas realizadas por meio de força, fraude ou coerção, organizações de defesa da liberdade religiosa afirmam que essas legislações possuem definições amplas e têm sido utilizadas contra cristãos envolvidos em atividades religiosas.
Segundo a CSW, as leis impõem penas severas e levantam preocupações sobre o direito dos cidadãos de escolher ou mudar de religião.
Em janeiro de 2026, um relatório do Relator Especial das Nações Unidas sobre liberdade de religião ou crença também chamou a atenção para as consequências dessas legislações.
Segundo o documento citado pela CSW, as leis anticonversão encorajaram conselhos de aldeias a impedir que indígenas Adivasis convertidos ao cristianismo fossem sepultados nos mesmos cemitérios de seus antepassados.
Crescimento da hostilidade
A CSW observa que houve uma mudança significativa no ambiente enfrentado pelas minorias religiosas na Índia na última década, com o avanço da ideologia nacionalista hindu conhecida como Hindutva.
Segundo a organização, grupos nacionalistas têm promovido discursos que apresentam a propagação de religiões minoritárias como uma ameaça à cultura e às tradições hindus.
Esse cenário tem contribuído para episódios de discriminação e violência contra cristãos e outras minorias religiosas.
Outro levantamento, divulgado em março pela Comissão de Liberdade Religiosa da Evangelical Fellowship of India (EFI), documentou 747 incidentes verificados de hostilidade, intimidação, violência e discriminação contra comunidades cristãs somente em 2025.
A organização informou ter recebido mais de 915 denúncias durante o ano, das quais 747 foram incluídas no relatório após um processo de verificação com diferentes fontes.
Em 2024, a mesma organização havia verificado 640 casos, contra 601 em 2023 e 147 registrados dez anos antes.
Na ocasião, o secretário-geral da entidade, reverendo Vijayesh Lal, classificou o crescimento da perseguição como alarmante.
Ataques recentes
O alerta ocorre em meio a novos episódios de violência contra cristãos.
No último domingo (06), dois ataques foram registrados no estado de Bengala Ocidental. Em uma das ocorrências, cerca de 125 pessoas invadiram uma casa utilizada como igreja presbiteriana na aldeia de Rangilabasan, vandalizaram o local e quebraram uma cruz.
Em outro episódio, aproximadamente 25 pessoas invadiram uma casa na aldeia de Nandapurya, onde o pastor Sukhendu Singh conduzia uma reunião de oração para cristãos de oito famílias.
Segundo testemunhas, o pastor foi levado à força e posteriormente agredido. Ele teria sido libertado após ser obrigado a assinar um documento se comprometendo a não retornar às aldeias para realizar reuniões de oração.
Herod Mullick, secretário fundador do Bengal Christian Council, demonstrou preocupação com a recorrência dos episódios e afirmou que as repetidas interrupções e ataques durante reuniões de oração aos domingos continuam sendo profundamente alarmantes.
Liberdade religiosa
A Constituição indiana estabelece o país como um Estado secular e garante, em seu artigo 25, liberdade de consciência e o direito de professar, praticar e propagar a religião.
Apesar dessa garantia constitucional, organizações internacionais vêm alertando para a deterioração das condições de liberdade religiosa no país.
Em fevereiro deste ano, a Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF) manifestou preocupação com a escalada de ataques realizados por grupos nacionalistas hindus contra cristãos e pediu que as autoridades indianas responsabilizem os autores da violência.
Diante do cenário, a CSW pediu ao governo indiano que revogue as leis anticonversão, fortaleça mecanismos de responsabilização das forças de segurança e garanta investigação e punição dos responsáveis por episódios de violência religiosa.
A organização também pediu medidas para proteger locais de culto e assegurar que cristãos e outras minorias possam exercer sua fé sem sofrer violência, intimidação ou discriminação.
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